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espiritualidade

Ser um Ser de Luz em terra de mimimis!

Por Paula Urbano

A luz também é guerreira. E talvez seja a mais exigente das batalhas.

Há quem imagine um Ser de Luz como uma criatura permanentemente serena, sorridente, incapaz de se zangar, de contrariar alguém ou de enfrentar um conflito.

Uma espécie de santo em férias permanentes, envolto numa aura luminosa e imune às contrariedades da existência humana.

Pois bem, não é assim que eu o compreendo.

Um Ser de Luz é, antes de tudo, um guerreiro.

Um Ser que guerreou, batalhou, atravessou os seus próprios infernos e emergiu das águas mais densas da sua sombra.

E não apenas da sua.

Também enfrentou os reflexos que encontrou nas águas do outro, esses espelhos que tantas vezes nos mostram precisamente aquilo que ainda não conseguimos reconhecer em nós.

Porque a luz não nasce necessariamente de uma existência sem sofrimento.

Muitas vezes, é precisamente depois de atravessarmos a escuridão que começamos a compreender a sua verdadeira natureza.

A luz não é a ausência de batalha

Ninguém faz o seu processo de consciência de um dia para o outro.

Na minha compreensão espiritual, esse caminho atravessa anos, experiências e várias vidas.

É um percurso exigente, por vezes desgastante, outras vezes tão desconcertante que quase parece delirante.

E, no entanto, continuamos.

Respiramos.

Nascemos a cada inspiração e morremos simbolicamente a cada expiração.

Um movimento constante de energia, transformação e renovação, neste imenso mar a que chamamos vida.

E é precisamente neste movimento que aprendemos a reconhecer aquilo que somos.

Não considero que um Ser de Luz seja menos guerreiro do que um Ser de sombra.

Pelo contrário.

É necessário muito mais domínio interior para enfrentar a violência sem se tornar violento, para reconhecer a mentira sem abandonar a verdade e para atravessar a dor sem permitir que ela destrua a capacidade de amar.

A sombra pode escolher a imposição, o domínio e o medo.

A luz precisa de encontrar outras armas.

E não são armas pequenas.

São a consciência, a coragem, a justiça, a verdade, o amor e uma extraordinária capacidade de resistência.

Não se trata de aceitar tudo.

Muito menos de baixar a cabeça perante aquilo que é injusto.

Um guerreiro da luz sabe dizer não.

Sabe afastar-se.

Sabe enfrentar.

Sabe agir quando a situação exige uma resposta firme.

Mas procura não perder a ética no momento em que mais facilmente poderia abandoná-la.

Porque a verdadeira vitória não consiste apenas em vencer uma batalha. Consiste em não nos transformarmos naquilo que combatemos.

As cicatrizes também contam a nossa história

Um Ser de Luz não nasce perfeito.

Erra.

Cai.

Julga.

Desilude-se.

Experimenta aquilo a que chamamos bem e mal, reconhece os seus próprios limites e aprende, muitas vezes, pela via menos agradável.

Levanta-se, lambe as feridas e continua.

Com o tempo, começa a olhar para as cicatrizes de outra maneira.

Já não são apenas marcas do sofrimento.

São também testemunhos da coragem necessária para continuar a caminhar.

Não significa que devamos glorificar a dor.

Mas podemos reconhecer aquilo que conseguimos transformar através dela.

A sabedoria não está em nunca cair. Está em não desperdiçar todas as quedas.

E, à medida que a consciência se desenvolve, também aumenta a responsabilidade que assumimos perante as nossas escolhas.

Nem sempre isso torna a vida mais fácil.

Por vezes, torna-a mais solitária.

Porque nem todas as pessoas compreendem o caminho que escolhemos percorrer.

Algumas observam-nos através dos seus próprios julgamentos, expectativas e ilusões.

Outras preferem acreditar na imagem que construíram de nós, mesmo quando essa imagem já não corresponde à pessoa que somos.

Compreendo que nem sempre seja fácil acompanhar alguém que está a transformar-se.

Mas também sei que não podemos abandonar a nossa verdade apenas para continuar a caber na interpretação que os outros fazem de nós.

Crescer em consciência implica, por vezes, deixar de pedir autorização para sermos quem somos.

O livre-arbítrio: uma bênção que também permite adiar

Na perspectiva espiritual que sigo, cada Ser traz consigo um percurso de aprendizagem, escolhas e compromissos assumidos antes do nascimento.

Algumas dessas experiências relacionam-se com aquilo que compreendemos como carma, expiação e missão.

Acredito que existem encontros, desafios e caminhos que fazem parte desse processo.

E acredito também que o esquecimento com que chegamos à existência física torna tudo bastante mais interessante.

Ou complicado, dependendo do dia.

Nascemos, esquecemo-nos daquilo a que viemos e começamos novamente a procurar o caminho de regresso à consciência.

Por vezes, algo nos desperta.

Outras vezes, a vida encarrega-se de nos recordar aquilo que preferíamos continuar a ignorar.

É aqui que entra uma das leis universais mais importantes na minha visão espiritual: o livre-arbítrio.

A possibilidade de escolher.

De avançar ou permanecer.

De assumir responsabilidades ou adiar.

E essa liberdade tem consequências.

Porque nem sempre escolhemos aquilo que nos faz crescer.

Por vezes, preferimos continuar onde estamos, mesmo quando sabemos que determinado padrão já não nos serve.

Adiar também é uma escolha.

E, na perspectiva reencarnacionista, aquilo que não integramos numa existência poderá continuar a fazer parte do nosso percurso noutras.

É uma liberdade extraordinária.

Mas também é uma responsabilidade imensa.

A sombra também se organiza

Dentro da minha compreensão espiritual, não vivemos apenas os conflitos visíveis da existência humana.

Reconheço igualmente a existência de dimensões e forças que actuam para além daquilo que os sentidos físicos conseguem observar.

Nesta visão, os seres ligados às egrégoras da sombra não dispõem do mesmo livre-arbítrio consciente. Encontram-se submetidos às forças e aos padrões que alimentam.

O domínio, o medo, a manipulação e a imposição tornam-se instrumentos de acção.

Ao longo das Eras, estas forças organizaram-se e fortaleceram-se, alimentando conflitos que, na minha perspectiva espiritual, fazem parte das batalhas pela consciência humana.

Há batalhas que reconhecemos durante o dia.

E outras que, na linguagem da minha experiência espiritual, se desenvolvem durante a noite, com ou sem recordação consciente.

Não considero necessário que todos interpretem estas experiências da mesma forma.

Mas é assim que compreendo uma parte importante do meu percurso.

E sei como determinadas vivências podem ser desgastantes.

Sobretudo quando sentimos que estamos a trabalhar por algo que ultrapassa os nossos interesses individuais.

A construção de uma Nova Terra, mais consciente, justa e harmoniosa.

Não uma Terra onde deixem de existir dificuldades.

Mas uma humanidade que já não precise de se organizar permanentemente através do medo, da violência e da separação.

E, entretanto, vivemos numa Terra de mimimis...

Aqui chegamos a uma questão que me inquieta particularmente.

A extraordinária facilidade com que nos habituámos a reclamar de tudo, responsabilizando quase sempre alguém pela vida que não conseguimos transformar.

Há quem passe os dias a observar aquilo que os outros fazem.

Quem inveje a felicidade alheia.

Quem construa nas redes sociais uma existência aparentemente extraordinária enquanto, interiormente, permanece profundamente insatisfeito.

Quem critique tudo, mas não mexa uma palha para transformar alguma coisa.

E há quem se habitue tanto à própria dor que deixe de procurar caminhos para sair dela.

Não estou a falar de quem sofre e precisa de ajuda, de tempo ou de acolhimento.

A dor humana merece respeito.

Refiro-me à atitude de quem transforma a queixa numa forma permanente de estar na vida, sem reconhecer a responsabilidade que também lhe pertence.

Porque uma coisa é atravessar uma fase difícil.

Outra é fazer da dificuldade uma identidade da qual já não queremos abdicar.

Não podemos desejar uma Nova Terra e continuar a reproduzir, todos os dias, os comportamentos que tornam a actual tão difícil de habitar.

A consciência exige participação.

Exige escolhas.

Exige que olhemos para os nossos hábitos, os nossos pensamentos e a maneira como tratamos os outros.

É muito bonito falar de amor universal.

Mas talvez fosse interessante começar por deixar de alimentar permanentemente o julgamento, a inveja e a revolta.

Afinal, a espiritualidade não deveria ser apenas uma colecção de palavras bonitas que publicamos quando estamos especialmente inspirados.

Deveria revelar-se na forma como vivemos.

E isso dá bastante mais trabalho.

Os guerreiros que ninguém vê

Na minha visão espiritual, existem muitos Seres comprometidos com o trabalho de transformação da consciência colectiva.

Alguns fazem-no de forma visível.

Outros trabalham em silêncio.

Há quem dedique a vida a acolher, cuidar, ensinar, harmonizar, limpar e transmutar aquilo que compreende como energias densas.

Há quem se desgaste profundamente nesse processo, por vezes esquecendo-se de cuidar de si próprio.

E há quem continue, mesmo sem saber se chegará a ver a concretização daquilo em que acredita.

Acredito que não estamos sozinhos.

Na minha fé, reconheço também a ajuda de Seres e dimensões espirituais que acompanham este processo de transformação.

Mas não considero que a esperança numa Nova Terra nos dispense da responsabilidade de transformar a vida que já temos.

Não se constrói um mundo de Paz, Amor e Harmonia apenas desejando que ele exista.

É necessário agir.

E a primeira batalha continua a ser interior.

Porque de pouco serve combatermos aquilo que identificamos como sombra no mundo se continuarmos a alimentá-la através das nossas próprias atitudes.

É aqui que reconheço a verdadeira exigência de um guerreiro da luz.

Não basta resistir.

É necessário transformar.

Não basta denunciar a mentira.

É necessário viver com verdade.

Não basta desejar justiça.

É necessário agir com ética, mesmo quando isso nos custa.

Um Ser de Luz não é aquele que nunca conheceu a sombra. É aquele que a conheceu profundamente e continua a escolher a luz.

Uma guerreira da luz ao serviço do Cristo

Não sei quanto tempo levará esta transformação colectiva.

Nem sei se verei concretizada, nesta existência, a Nova Terra em que acredito.

Mas isso não diminui o sentido do meu caminho.

A fé não me exige garantias.

Exige-me coerência.

Acreditar que podemos construir uma realidade mais consciente dá-me força.

Orar renova-me.

E continuar a fazer aquilo que considero justo, ético e verdadeiro dá sentido à minha presença nesta experiência humana.

Não porque me considere superior a quem escolhe outro caminho.

Mas porque reconheço a responsabilidade de permanecer fiel àquilo que a minha consciência me pede.

Ser um guerreiro da luz não é viver protegido de todas as batalhas.

É enfrentá-las com coragem, sabendo que o amor não é fraqueza e que a verdade nem sempre é confortável.

É aceitar as consequências das nossas escolhas.

É aprender a esperar sem desistir.

É cair e voltar a levantar.

E é reconhecer que a força mais profunda não precisa de nascer do ódio.

A luz não é frágil.

A luz também luta.

E a sua maior força está em conseguir atravessar a sombra sem perder o coração.

Enquanto respirar, continuarei a acreditar.

Enquanto tiver força, continuarei a caminhar.

E, até à minha última expiração, procurarei permanecer fiel a esse compromisso.

Uma guerreira da Luz ao serviço do Cristo!

Paula Urbano

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