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espiritualidade

O Caminho do Ser

Por Paula Urbano

Nós, enquanto Espíritos, somos providos de uma Alma, de vários corpos — físico, mental, emocional e astral —, de um Eu inferior e de um Eu superior.

Tanta coisa concentrada num corpinho que, quando nos olhamos ao espelho, até parece uma coisa só.

E, no entanto, segundo esta visão espiritual do Ser, somos muito mais do que aquilo que o espelho consegue devolver-nos.

O mais curioso é que passamos grande parte da vida a tentar compreender o mundo exterior, quando nem sequer conhecemos verdadeiramente tudo aquilo que habita dentro de nós.

Somos uma extraordinária reunião de dimensões, nem sempre de acordo entre si, a tentar viver uma única experiência humana.

E depois admiramo-nos de sermos complicados!

Um corpo para viver. Outros para sentir, pensar e compreender.

O corpo físico é aquele que reconhecemos mais facilmente.

Tem uma forma, ocupa espaço, envelhece, adoece, recupera e acompanha-nos em todas as experiências desta existência.

É através dele que tocamos, caminhamos, abraçamos, sentimos o calor do Sol e experimentamos a realidade material.

Mas o corpo físico também nos fala.

Quantas vezes sentimos o peso de uma emoção antes de conseguirmos dar-lhe um nome?

Quantas vezes o cansaço nos obriga a parar quando a mente insiste em continuar?

O corpo físico tem uma sabedoria própria, que nem sempre respeitamos.

Depois temos a dimensão emocional.

Essa extraordinária parte de nós que consegue transformar uma pequena contrariedade numa tragédia de proporções universais.

É nela que reconhecemos os afectos, os medos, as alegrias, as tristezas e os apegos.

É também através dela que experimentamos a vulnerabilidade de estar vivos.

As emoções não são nossas inimigas. São experiências que pedem atenção, compreensão e, por vezes, uma boa dose de paciência.

O problema começa quando nos identificamos inteiramente com aquilo que sentimos.

Sentir medo não significa sermos o medo. Sentir tristeza não significa que a tristeza seja a nossa identidade.

Mas nem sempre conseguimos fazer esta distinção.

E é aqui que entra a dimensão mental.

A mente interpreta, organiza, compara, recorda, antecipa e constrói explicações.

É uma ferramenta extraordinária.

Só que também tem uma tendência curiosa para acreditar em todas as histórias que conta.

Pensamos, interpretamos e, muitas vezes, confundimos a interpretação com a realidade.

Aquela vozinha interna que dá ordens — «Faz isto, vai ali, não digas aquilo, devias ter feito de outra maneira...» — parece estar permanentemente de serviço.

E nós, convencidos de que somos essa voz, obedecemos-lhe sem grande contestação.

Mas será que somos apenas aquilo que pensamos?

Ou existe em nós uma dimensão capaz de observar o próprio pensamento?

E o corpo astral, onde entra nesta história?

Nas tradições esotéricas, o corpo astral é descrito como uma dimensão subtil da experiência humana, associada, conforme a escola, às emoções, às imagens interiores e a estados de consciência que ultrapassariam a percepção exclusivamente física.

Estas tradições não utilizam todas a mesma classificação dos corpos, nem estas dimensões constituem estruturas comprovadas pela ciência.

Mas gosto de explorar o seu significado enquanto linguagem espiritual.

Porque há experiências interiores que parecem maiores do que aquilo que conseguimos explicar imediatamente.

Um sonho que permanece connosco durante dias.

Uma intuição que não sabemos justificar.

Uma sensação de familiaridade difícil de traduzir em palavras.

Nem tudo aquilo que sentimos precisa de ter uma explicação espiritual. Mas também não considero necessário reduzir a experiência humana apenas àquilo que conseguimos compreender num determinado momento.

A consciência começa, muitas vezes, quando conseguimos observar sem sentir a necessidade de explicar tudo.

E talvez seja essa uma das aprendizagens mais difíceis.

Aceitar que podemos experimentar diferentes dimensões de nós próprios sem termos de transformar cada sensação numa verdade absoluta.

O Eu inferior e o Eu superior

Na linguagem espiritual, falamos frequentemente de um Eu inferior e de um Eu superior.

Mas considero importante não interpretar esta distinção como se tivéssemos dentro de nós duas personagens, uma boa e outra má, permanentemente em disputa.

O Eu inferior pode ser compreendido como a dimensão da personalidade mais identificada com os medos, os desejos, os mecanismos de defesa, os condicionamentos e a necessidade de controlo.

É aquela parte de nós que reage antes de compreender.

Que se apega porque teme perder.

Que julga porque ainda não consegue aceitar.

Que insiste em ter razão, mesmo quando já percebeu que provavelmente não a tem.

Uma figura bastante familiar, convenhamos.

O Eu superior, por sua vez, representa, nesta perspectiva espiritual, uma dimensão de consciência mais ampla, capaz de observar a experiência sem se identificar completamente com ela.

Não significa uma personalidade perfeita ou uma espécie de entidade iluminada que habita algures no andar de cima.

Significa a possibilidade de desenvolver maior lucidez, discernimento, responsabilidade e compreensão.

Talvez evoluir não seja destruir o Eu inferior, mas aprender a reconhecê-lo sem lhe entregar permanentemente a direcção da nossa vida.

Porque aquilo que rejeitamos em nós raramente desaparece apenas por o termos declarado espiritualmente inconveniente.

E a sombra, quando ignorada, tem uma capacidade extraordinária para encontrar outras maneiras de se fazer ouvir.

A Alma e o Espírito: quem vive todas estas experiências?

E no meio de tantos corpos, pensamentos, emoções e diferentes expressões do Eu, onde ficam a Alma e o Espírito?

Na visão espiritual que tenho vindo a estudar e a integrar, o Espírito representa a nossa essência mais profunda, enquanto a Alma se relaciona com a individualidade e o percurso das experiências vividas.

São conceitos que diferentes tradições compreendem de formas distintas.

Mas a questão que verdadeiramente me interessa não é encontrar uma definição que encerre definitivamente o assunto.

É perguntar:

Quem sou eu para além das emoções que sinto, dos pensamentos que alimento e da personalidade que construí?

Talvez a resposta não se encontre apenas no conhecimento.

Podemos estudar durante décadas, conhecer os diferentes corpos, falar de frequências, dimensões, evolução e estados superiores de consciência.

E continuar a reagir com a maturidade emocional de uma criança quando alguém nos contraria.

Conhecimento não significa necessariamente integração.

Não basta compreender intelectualmente as várias dimensões do Ser. É na maneira como vivemos que essa compreensão ganha significado.

E ainda temos de nascer e aprender tudo outra vez!

Segundo a perspectiva espiritual da reencarnação, chegamos a esta vida com uma história que não recordamos conscientemente.

De onde viemos?

Para onde vamos?

O que viemos fazer a este planeta?

Damos o primeiro grito, recebemos os cuidados de quem nos acolhe e começamos novamente a aprender.

A falar, a escrever, a caminhar, a tirar a carta de condução...

As mesmas escolas, aprendizagens semelhantes.

Que seca!

E, no meio de tanto conhecimento acumulado, talvez nos esqueçamos da aprendizagem que considero mais importante: evoluir em consciência.

Fazer novas experiências.

Conhecer os outros que, segundo esta visão espiritual, se comprometeram a partilhar connosco determinados caminhos.

Aprender a ajudar e a aceitar ajuda.

Compreender que a vida é uma mudança constante.

E, claro, lidar com o Carma.

Porque o Carma é uma bitch!

Ou, pelo menos, pode parecer quando nos vemos confrontados, uma e outra vez, com os mesmos padrões.

Na minha compreensão espiritual, o carma não precisa de ser visto como um sistema de castigos e recompensas, mas como uma possibilidade de compreender consequências, responsabilidades e aprendizagens.

Sejam questões relacionadas com experiências desta vida ou, dentro da crença reencarnacionista, de outras existências.

O essencial não é viver obcecado com facturas passadas.

É reconhecer aquilo que podemos transformar no presente.

Várias dimensões. Uma única vida para aprender a integrá-las.

Todos temos vidas diferentes, mas, em tantos aspectos, tão semelhantes.

Mudam os cenários, os palcos, as roupagens e os lugares.

Mudam as pessoas que chegam para ficar e aquelas que desaparecem à velocidade da luz.

Mas os grandes desafios humanos continuam a encontrar-nos.

Aprender a amar sem possuir.

A pensar sem ficarmos prisioneiros dos pensamentos.

A sentir sem sermos dominados pelas emoções.

A reconhecer os limites do corpo físico.

A aceitar as partes de nós que ainda não compreendemos.

E a desenvolver uma consciência capaz de acolher tudo isto.

Talvez os mais sábios não sejam aqueles que conhecem melhor a organização dos corpos subtis ou que conseguem explicar todas as dimensões do Universo.

Talvez sejam aqueles que aprenderam a viver com simplicidade, presença e humildade.

Os que conseguem observar a vida sem resistir permanentemente àquilo que não controlam.

Os que reconhecem na Terra generosa um espaço de aprendizagem e no Pai Sol uma imagem dessa força que nos verticaliza, lembrando-nos de que crescer também implica criar raízes.

Porque a verdadeira evolução não consiste em abandonar a nossa humanidade para alcançar uma dimensão superior.

Consiste, talvez, em trazer mais consciência à humanidade que já somos.

E é aqui que encontro o sentido mais profundo da liberdade.

Ser livre não significa deixar de ter emoções, pensamentos, medos ou contradições.

Significa começar a reconhecê-los.

Perceber que não precisamos de obedecer a todas as vozes interiores.

Que podemos escolher de forma mais consciente.

Que a humildade não nos diminui.

E que a simplicidade não é ausência de profundidade.

Talvez a sabedoria seja precisamente essa capacidade de integrar aquilo que somos, em vez de passarmos a vida a tentar escapar de nós próprios.

Afinal, com tantos corpos, tantas dimensões e tantas possibilidades de consciência, já temos bastante trabalho pela frente.

E tudo isto dentro de um único corpinho!

Talvez o caminho do Ser não seja chegar a outro lugar, mas aprender a habitar, com consciência, todas as dimensões de nós próprios.

Paula Urbano

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