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autoconhecimento

A Vida que nos venderam

Por Paula Urbano

Paula Urbano numa falésia junto ao mar

Entre a horizontalidade da matéria e a verticalidade do espírito

Por Paula Urbano

Eu faço. Eu vou. Eu recebo. Eu acolho. Eu cuido. Eu escuto.

E, por vezes, levo as pessoas tão profundamente dentro de si mesmas que acabam por chegar àquele lugar onde já não conseguem fugir do que sentem. Algumas encontram o coração. Outras descobrem o abismo que aprenderam a esconder.

Como o faço?

Simples. Sinto. E não duvido daquilo que a experiência me ensinou a reconhecer.

Procuro explicar, ensinar, partilhar e comunicar da melhor forma que sei. Ainda ontem alguém me dizia:

«Tu não te sabes vender.»

Talvez tenha razão.

Mas há uma diferença entre saber comunicar aquilo que fazemos e transformar aquilo que somos num produto.

Eu não estou à venda. O meu trabalho tem valor, naturalmente. Mas a minha consciência não tem preço.

Não preciso de convencer ninguém de que tenho respostas para a sua vida. Cumpro o meu papel com aquilo que sei, com o que vivi e, sobretudo, com aquilo que procuro praticar.

Se, por vezes, consigo reconhecer antecipadamente determinados processos que outras pessoas ainda vão atravessar, não é por superioridade, nem por qualquer pretensão de saber mais.

É porque já passei por alguns desses lugares. Já conheci as suas sombras, as suas armadilhas e as suas resistências. Já tive de desmontar muitas das certezas que julgava minhas.

E quando à experiência se juntam uns pozinhos de conhecimento, discernimento e uma intuição educada pela vida, algo começa a transformar-se.

A intuição deixa de ser apenas um sentir. Ganha profundidade, responsabilidade e aproxima-se da sabedoria.

Mas há uma realidade que me inquieta cada vez mais.

Estamos demasiado ocupados a fazer coisas e cada vez menos disponíveis para perceber o que essas coisas estão a fazer de nós.

Vivemos numa sociedade que glorifica a ocupação, a produtividade e a acumulação. Estar ocupado tornou-se quase uma medalha de mérito. Não ter tempo passou a ser sinal de importância.

E, no meio desta extraordinária eficiência, vamos ficando ausentes de nós próprios.

Depois chega o cansaço. O esgotamento. A tristeza. O vazio que não sabemos explicar.

Claro que nem todo o sofrimento nasce daqui. Mas talvez valha a pena perguntar quanto do nosso desgaste resulta de uma vida construída permanentemente para fora.

Somos resilientes, é verdade. O corpo humano tem uma extraordinária capacidade de adaptação. Mas adaptarmo-nos a tudo não significa que tudo nos faça bem.

E pergunto-me: será assim tão necessário ocupar toda a existência com a necessidade de ter?

O processo repete-se quase religiosamente.

Trabalhar mais para ganhar mais. Ganhar mais para gastar mais. Gastar mais para sustentar uma vida que exige, naturalmente, trabalhar ainda mais.

Uma espécie de roda cármica, agora com prestações mensais.

E assim acumulamos.

Casas cheias de objectos que já não utilizamos. Agendas onde não cabe um minuto de silêncio. Mentes povoadas de crenças herdadas, muitas delas provenientes de gerações marcadas pela escassez, pelo medo e pela necessidade de segurança que atravessou o período do pós-guerra.

Essas crenças tiveram o seu contexto. Talvez até tenham sido necessárias. Mas será que continuam a servir-nos?

E depois há a emoção.

Ah, a emoção...

Essa dimensão da existência que tentamos organizar como quem arruma uma gaveta, sem perceber que, muitas vezes, nem sequer sabemos identificar o que sentimos.

Confundimos amor com apego. Segurança com controlo. Sucesso com reconhecimento. Liberdade com capacidade de consumo.

E quando já não sabemos quem somos, procuramos mais qualquer coisa para preencher o espaço.

Mais uma experiência. Mais uma compra. Mais uma viagem. Mais uma formação. Mais um objectivo.

Tudo pode ser maravilhoso, excepto quando se transforma numa forma sofisticada de fugir de nós próprios.

Venderam-nos um sonho de felicidade assente na conquista exterior, mas esqueceram-se de nos falar das estruturas interiores necessárias para o sustentar.

Porque uma vida pode estar cheia de conquistas e profundamente vazia de sentido.

E talvez a verdadeira questão não seja quanto ainda conseguimos alcançar, mas quanto estamos dispostos a abandonar daquilo que já não somos.

Afinal, de que serve construir uma vida aparentemente extraordinária se, no fim, não temos tempo, espaço ou consciência para a habitar?

Entre a horizontalidade e a verticalidade

E o que penso eu sobre tudo isto?

Mas, pensando melhor, que importância tem aquilo que penso, senão para mim?

Talvez nenhuma. E está tudo bem assim.

Não pretendo convencer ninguém de que a vida deve ser vivida de determinada maneira. Cada ser tem o seu caminho, o seu tempo e as suas experiências.

Mas há algo que a vida me tem ensinado.

Não precisamos de rejeitar o mundo material. Muito pelo contrário.

A matéria é importante. É nela que experimentamos, criamos, trabalhamos, amamos, construímos e aprendemos a viver com os outros.

É a nossa horizontalidade. A dimensão onde cumprimos a experiência de estar encarnados, com tudo o que isso implica de belo, desafiante e, por vezes, absolutamente absurdo.

Mas não podemos dissolver-nos nela.

Porque, enquanto a horizontalidade nos permite experimentar a vida, é na verticalidade que procuramos compreender o sentido dessa experiência.

É esse movimento interior, tantas vezes silencioso, que nos conduz à consciência do espírito.

A horizontalidade dá-nos a experiência. A verticalidade permite-nos encontrar-lhe sentido.

Não se trata de escolher entre ter e ser, entre matéria e espírito, entre viver no mundo ou procurar a transcendência.

Trata-se de compreender que uma dimensão não precisa de anular a outra.

Podemos construir, prosperar, desfrutar da beleza e do conforto da vida material sem fazer deles a medida do nosso valor.

E podemos cultivar a consciência espiritual sem fugir às responsabilidades de estar na Terra.

Talvez a verdadeira evolução não esteja em subir tão alto que deixemos de sentir o chão, nem em acumular tanto que nos esqueçamos de olhar para o céu.

Talvez esteja precisamente no ponto onde a horizontalidade e a verticalidade se encontram.

Onde a matéria é vivida com consciência e o espírito deixa de ser apenas uma ideia bonita para se tornar uma forma de estar na vida.

Porque, afinal, não viemos apenas para ter uma vida.

Viemos, também, para tomar consciência de quem somos enquanto a vivemos.

Paula Urbano

Essência Astral — Astrologia e Consciência Espiritual

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