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Ser Especial Tornou-se Uma Profissão?

Por Paula Urbano

A Estranha Necessidade de Sermos Especiais

Sobre missões espirituais, títulos e a grandeza das vidas aparentemente comuns.

Quando comecei a trabalhar com terapias, em 2004, éramos poucos. Em Lisboa e arredores, quase todos nos conhecíamos. Éramos os estranhos, os que falavam de energia, de alma e de outras coisas que, naquele tempo, não faziam propriamente parte das conversas de café.

Recordo-me da curiosidade de quem se aproximava. Uns com interesse genuíno, outros com aquele olhar desconfiado de quem está a tentar perceber se estamos a falar a sério.

E estávamos.

Entretanto, passaram-se mais de vinte anos e o cenário mudou consideravelmente.

Multiplicaram-se os terapeutas, as formações, as certificações, as técnicas e os títulos. Alguns tão elaborados que quase precisamos de uma segunda apresentação para perceber a primeira.

Nada tenho contra essa evolução. O conhecimento deve circular, as ferramentas devem ser estudadas e cada pessoa tem o direito de procurar o seu caminho.

Mas há uma coisa que me tem feito pensar.

Cada vez mais, quando alguém fala do seu propósito de vida, surge uma afirmação que se tornou curiosamente familiar:

«Sinto que a minha missão é ajudar os outros.»

E pergunto-me: será que viemos todos fazer a mesma coisa?

Quando o propósito precisa de um título

Reparo que poucas pessoas me dizem que a sua missão é ser pedreiro, electricista, jardineiro, professor ou trabalhar nas limpezas.

Raramente alguém anuncia, com entusiasmo espiritual, que nasceu para manter uma rua limpa ou reparar as canalizações de um prédio.

Não parece suficientemente extraordinário.

E, no entanto, imaginemos por um momento um mundo sem estas pessoas.

Talvez a nossa iluminação espiritual tivesse algumas dificuldades em funcionar sem electricidade, água canalizada ou alguém que recolhesse o lixo.

A vida tem destas ironias.

Também me surpreende a facilidade com que desvalorizamos a maternidade, a paternidade ou a dedicação à família, como se cuidar de uma criança, acompanhar um idoso ou estar presente na vida de alguém fosse uma existência de segunda categoria.

Quantas vezes ouvimos a expressão «sou apenas mãe»?

Apenas?

Ser mãe é, afinal, a profissão mais difícil e importante do mundo. É criar, cuidar, educar e ajudar a formar seres humanos, todos os dias da sua vida. É acompanhar o nascimento de uma consciência, ensinar a viver e, simultaneamente, aprender a ser melhor pessoa. Uma responsabilidade imensa que não termina quando os filhos crescem.

Desde quando a dignidade de uma vida precisa de uma profissão considerada especial para ser reconhecida?

Não ignoro a dureza do trabalho, as desigualdades ou a falta de reconhecimento que tantas pessoas enfrentam. Mas a importância humana de alguém não deveria depender do prestígio daquilo que faz.

Talvez estejamos tão preocupados em descobrir uma missão extraordinária que começámos a desprezar a extraordinária complexidade das coisas simples.

A necessidade de nos sentirmos necessários

Ser terapeuta pode ser um caminho muito bonito.

Conheço a profundidade do trabalho, a responsabilidade de acompanhar quem chega fragilizado e o cuidado necessário para escutar aquilo que, tantas vezes, nem sequer encontra palavras.

Mas também sei que a vontade de ajudar merece ser questionada.

Ajudamos porque sentimos amor e disponibilidade genuína pelo outro?

Ou haverá momentos em que precisamos de nos sentir necessários, importantes, reconhecidos?

Não coloco estas perguntas para julgar ninguém. Incluo-me nelas, porque acredito que a consciência começa precisamente quando temos coragem de interrogar as nossas próprias motivações.

Muitas pessoas chegam ao trabalho terapêutico depois de atravessarem experiências difíceis. O sofrimento pode abrir-nos à compreensão da dor alheia.

Mas não é uma ferida que nos transforma automaticamente em sábios.

Às vezes, uma ferida é apenas uma ferida.

A sabedoria exige tempo, responsabilidade, discernimento e, sobretudo, a humildade de reconhecer que não temos todas as respostas.

Nem todas as pessoas precisam de ser salvas. Muitas precisam simplesmente de ser escutadas, respeitadas e acompanhadas sem que alguém lhes retire a responsabilidade pelo próprio caminho.

Ajudar não é ocupar o lugar do outro. É saber estar presente sem precisar de ser o protagonista da sua transformação.

O sagrado também vai ao supermercado

Há uma espiritualidade que não precisa de grandes discursos.

Encontro-a na pessoa que nos recebe com gentileza, mesmo depois de um dia difícil.

Na professora que reconhece o talento de uma criança quando ninguém parece reparar nela.

Em quem prepara uma refeição com cuidado.

Em quem limpa um espaço que outros irão utilizar sem alguma vez conhecerem o seu nome.

E até naquele simples «bom dia» que oferecemos a quem nos atende no supermercado.

Não é a profissão, por si só, que torna estes gestos espirituais. É a humanidade que podemos colocar neles.

E não precisamos de lhes chamar actos sagrados para que tenham valor.

Talvez seja precisamente esta a dificuldade: aceitar que podemos viver uma existência profundamente significativa sem sermos vistos como pessoas extraordinárias.

Sem uma missão anunciada.

Sem um título impressionante.

Sem a necessidade permanente de demonstrar ao mundo o quanto evoluímos.

Afinal, o que viemos fazer?

Não sei se todos viemos com uma missão definida.

E desconfio um pouco de quem parece conhecer, com absoluta certeza, a missão de toda a humanidade.

Sei apenas que cada pessoa atravessa experiências diferentes, encontra desafios próprios e dá significado à vida à sua maneira.

Talvez alguém descubra o seu propósito numa sala de terapia.

Outro, a criar uma obra de arte.

Outro, a educar os filhos.

E outro ainda, simplesmente, a aprender a viver em paz consigo próprio.

Não vejo por que razão haveríamos de estabelecer uma hierarquia espiritual entre estas experiências.

Afinal, de que nos serve falar tanto de amor universal se continuamos a medir o valor das pessoas pelo que fazem, pelo que possuem ou pela imagem que projectam?

A consciência, pelo menos como a entendo, não deveria tornar-nos mais especiais.

Deveria tornar-nos mais humanos.

E talvez a grande questão não seja descobrir uma missão suficientemente importante para justificar a nossa existência.

Talvez seja perceber porque sentimos tanta necessidade de a justificar.

Porque, no fim de contas, não precisamos de ser extraordinários para que a nossa vida tenha sentido.

Talvez o mais difícil não seja descobrir uma missão grandiosa. Talvez seja aprender a não desprezar a vida que temos nas mãos.

Paula Urbano

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